15 de nov de 2014

O Trabalho Árduo do Descondicionamento



(Trechos de uma palestra sobre a prática do zen, ministrada por Monge Kômyô durante um retiro neste ano em Goiânia)

"Eu gostaria, nessa conversa primeira do dia, retomar um pouco alguns comentários sobre a prática. O esforço, a experiência que nós temos num sesshin (retiro) é um treinamento para todos, eu inclusive. O treinamento fundamental é conseguir
estabelecer a mente de forma consciente, clara. Isso não é muito fácil. E não é fácil apenas pelos aspectos externos da vida. É essencialmente exigente, devido à natureza da mente condicionada, nossa mente.

No contexto da psicologia budista, do Abhidharma, todos nós estabelecemos nas nossas vidas, a partir do padrão de nossas vidas, vasana. Vasana é energia de hábito. Cada um de nós possui um agrupamento de energias de hábito que caracteriza quem nós somos. A mente condicionada, essa mente que se caracteriza por muitas energias de hábito, é uma mente que, essencialmente... como se diz no Zen, é como um macaco louco dentro de uma casa. Nossa mente, nossa cabeça é a casa. E aqui dentro há um macaco louco. Quando nós tentamos estabelecer um regime de auto-observação mais intenso, o macaco louco não gosta. A tradição Zen lida com os paradoxos.

A experiência zen, em geral se manifesta para dar uma rasteira na gente. Por que isso? É alguma perversidade? Não. O objetivo no Zen é tentar desestabilizar a falsa idéia que o nosso eu tem de que está no controle e que tudo tem que se adaptar às nossas expectativas. O trabalho contemplativo é um trabalho árduo de descondicionamento. Portanto, o primeiro convite que eu faço a todos é: simplesmente observem a si mesmos. Diante dos desafios, das situações, do próprio movimento durante o sentar e fazer zazen, observem a si mesmos. Não tentem controlar, até porque vocês não vão conseguir. Observem. Esse é o primeiro passo. O primeiro passo é reconhecer a si mesmo. O silêncio, a introspecção, ela ajuda a estabelecer esse meio, para que possamos reconhecer melhor quem nós somos. Sem culpa, sem recriminação, sem crítica, só reconhecer. Já aí temos um grande desafio.

O treinamento também propõe que, à medida que nós conseguirmos, através da prática, reconhecer, clarificar melhor as nossas energias de hábito, esse composto que nós chamamos “eu”, nós partimos para compreender a nós mesmos. Compreender as raízes de nossos hábitos. Saber perceber em nós mesmos as energias de hábito que são saudáveis e saber detectar as energias de hábito que não são saudáveis. E sobre os aspectos não saudáveis, nós fazemos uma investigação para encontrar a origem daquilo. E aí caímos no terceiro passo: transformação. Somente iremos conseguir transformar a nós mesmos a partir do momento em que tivermos uma visão bem clara dos fundamentos dos nossos comportamentos, das nossas ideias, das nossas opiniões, das nossas atitudes, da caracterização e do estabelecimento das energias não saudáveis.
Graças a essa clareza, essa energia de consciência que permite essa clareza, nós vamos começar um processo de transformação. A própria experiência de perceber com clareza as raízes dos hábitos em nossa mente já promove naturalmente um mecanismo de transformação. As raízes dos hábitos não saudáveis em nosso comportamento se estabelecem e até se aprofundam porque nós não temos consciência desse fundamento. Eu sou ciumento e o meu ciúme eu sei que acontece porque minha namorada passeia e os homens ficam olhando. Eu estou usando aqui uma referência masculina, mas o ciúme se estabelece de várias formas. Mas de fato não é isso. Não é a namorada, ou como ela se veste, ou circunstâncias externas que realmente fazem surgir as energias não saudáveis. São aspectos profundamente arraigados em nossa natureza que dão margem à possibilidade de, através de um estímulo externo, essa semente, surgir na superfície da consciência e se estabelecer. O trabalho investigativo da contemplação é saber reconhecer isso. Não é tentar mudar de namorada, ou reprimir a pessoa com quem você se relaciona, ou bater nas pessoas de quem você tem ciúme. Nenhuma ação externa vai realmente levar à transformação e ao quarto passo que é a cura - ao fim do domínio dessa energia não saudável na nossa mente.
Eu acho que dá para perceber por todos, não é uma tarefa de um dia. Ela exige um empenho e um compromisso de uma vida inteira. Eu comentei que eu pratico, procuro praticar há muitos anos, muitas décadas. E ainda, sim... tive grandes experiências. A minha experiência é a minha experiência. Outros monges, outros praticantes terão experiências próprias, com características próprias. Eu falo aqui para vocês sobre a minha experiência. E grande parte das minhas aprendizagens na vida não foram devido aos meus acertos, mas ao contrário, foram devido aos meus erros. Numa palestra lá em Niterói, com Genshô Sensei, um rapaz perguntou para ele como poderia fazer para praticar. Ele falava: “A minha vida é muito difícil. Eu tenho muitos problemas, muitas dificuldades. Eu me sinto assim com grande dificuldade de estabelecer a prática.” E Genshô Sensei, do jeito dele, olhou para o rapaz e falou: “Olha, eu faço votos que você continue sofrendo muito, sofra até mais.” Quem ouve assim pensa: “Nossa, essa história de Zen é muito deprimente. Querer que uma pessoa sofra.” É preciso compreender bem o ensinamento. Ao contrário do que se pensa, o budismo, os ensinamentos de Buda, são extremamente positivos e vivos. O que o Buda procurou demonstrar é: não finja que você não sofre. Todos nós sofremos, passamos por dificuldades. O elemento é: aprenda através da sua experiência. Não tente encontrar algum mecanismo para disfarçar os seus erros, a sua relatividade. Aceite. Observe. Não se recrimine. O budismo não é uma questão de culpa. Apenas de responsabilidade. Há um aspecto no budismo que se chama honestidade interior. Se nós cometemos um erro, ao invés de ficar dizendo: “não, não, não fui eu não. Foi aquilo ali, ou aquilo lá, ou aquele outro que, por acaso levou a isso e eu fiz...” Não arranje um bode expiatório. Observe o erro. Respire. Procure compreender a sua parcela de responsabilidade no erro, nas relações humanas, nas relações com a família, relações afetivas. Nós temos situações em que é exigido de nós um empenho mais intenso. E às vezes a pessoa de quem a gente gosta nos magoa.

Como diz o mestre Thich Nhat Hanh do zen vietnamita, fala alguma coisa que não quer falar, mas acaba falando. Faz alguma coisa que não quer fazer, mas acaba fazendo. O exercício não é apenas se prender ou recriminar o outro, mas tentar enxergar o que nós podemos fazer ou deixar de fazer para que, no futuro, isso ou não se repita mais, ou se torne mais... menos intenso. Eu reluto aqui em falar assim porque certas aprendizagens e descobertas, certas transformações e curas ocorrem em camadas. A coisa tinha uma intensidade. Através da prática diminuiu essa intensidade um pouco. Ainda ocorre, mas com pouco menos intensidade. Com o tempo e com o esforço, vai diminuindo. Aquela energia, aquela relação não saudável vai se curando. Um retiro é um primeiro passo para que nós possamos estabelecer a mente de forma que, aos poucos, saibamos encontrar meios hábeis para lidar com nossos problemas. Os problemas não vão acabar. Não há no Zen nenhum tipo de afirmação assim: "pratique o Zen por três meses e seus problemas se acabam". Não existe isso. Na vida sempre existem problemas. A questão não está no problema, mas na mente. Como nós vamos entender, como nós vamos lidar com o problema. Por pior que seja. Tudo é uma questão de como nós estabelecemos a nossa mente diante dos acontecimentos, das realidades que se manifestam em nossas vidas. Daí, o ensino de Buda ser muito direto em certos pontos. Não finja que não sofre. Procure observar até mesmo para poder descobrir se você realmente está sofrendo ou se você imagina que está sofrendo. “Meu trabalho é horrível. É uma agonia. É o pior lugar do mundo”. Pode ser que seja realmente um lugar difícil, tenso. Mas é bem provável que grande parte desse aspecto ruim do seu trabalho se manifeste na sua mente. Você não consiga enxergar meios para qualificar melhor o ambiente em que você vive, trabalha. É possível.
Buda também ensinou que, usando termos modernos, sempre existe uma saída. Pode não ser uma saída que a nossa expectativa queira, mas sempre existe uma saída. É claro que na vida existem circunstâncias intensas, às vezes até perigosas. Mas, de novo, o ensinamento é ter a mente tranquila para poder lidar o melhor possível com essas situações. Durante a prática do zazen, eu sei que para muitos a postura é ruim, é uma luta. Como falei ontem, nós precisamos encontrar um caminho do meio, um meio termo. Nós não devemos nos exigir de maneira cruel. Mas não podemos permitir que a nossa mente condicionada, o nosso eu arranje uma desculpa para não tentar se esforçar na prática. Aquelas pessoas, eu repito, que se sentirem com uma dificuldade física muito grande, entrem em contato, que tentaremos ver uma cadeira para melhorar a prática. Aos outros que conseguem manter a postura, mas que, com a continuidade do zazen pode ficar mais difícil, tentem estabelecer o melhor possível a atenção à respiração como forma de sustentar o esforço. A respiração é muito importante no zazen. Ela não só é uma âncora, é um sustentáculo, é um apoio para que nós possamos lidar com os desafios físicos, emocionais, psicológicos de você sentar para meditar. A respiração também é a forma de fazer com que nossa mente se mantenha no agora. Todo o ensinamento zen se estabelece no agora. O porquê que a respiração é tão importante para isso... Como eu ensino lá em Niterói, a respiração é o grande elemento para levar a mente ao momento presente, porque nós não respiramos no futuro. Nós não respiramos no passado. Nós só respiramos no presente. Vocês agora estão respirando e à medida que vocês expiram e inspiram, o fenômeno só se manifesta agora. O interessante é que: o que é o agora? É um constante vir a ser. Aonde está o agora? Como a gente pega o agora? Não se pega o agora. Aí está a grande dinâmica da experiência contemplativa. A mente que se mantém no agora é uma mente que se mantém flexível e una com a dinâmica das coisas que acontecem. Porque tudo que está se manifestando nesse momento se manifesta num fluxo de agora. Não são agoras. É sempre o agora."


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