7 de abr de 2018

Em "La Casa de Papel" ladrões roubam o bem mais importante: o Tempo

Diante de toda uma geração que vive sob o impacto do desemprego e da perda de direitos sociais desde o crash financeiro internacional de 2008, a Espanha vem produzindo uma série de filmes que pensa essa condição. O mais recente é a série para TV “La Casa de Papel” (2017-), disponível no Netflix, que reflete a perplexidade de todos diante da natureza dessa crise: como conformar-se com bancos, agentes financeiros e especuladores capazes de fabricar, sem limites, o próprio dinheiro enquanto o restante da sociedade sofre as consequências? Um grupo de ladrões trajando macacões vermelhos e com máscaras do Salvador Dalí invade a Casa da Moeda da Espanha, liderado por alguém cujo codinome é “Professor”. Eles não vieram roubar, mas fabricar seu próprio dinheiro com a ajuda dos próprios reféns. Mas o “Professor” terá que roubar um bem menos tangível e muito mais importante: roubar o tempo do Governo, da Polícia e da grande mídia. Quais as conexões entre um sistema monetário-financeiro sem lastro e o controle do Tempo? 

               Se a sociabilidade é uma ficção necessária para que não retornemos à natureza, talvez o dinheiro seja a instituição social mais cercada de simbolismos, relações fetichistas, mágicas e religiosas, muitas vezes travestidas por conceitos da chamada “ciência econômica”. 

               Paradoxalmente, porém, a crença que sustenta essa instituição é de cunho moral: o dinheiro conquistado é sempre fruto do nosso trabalho e merecimento, nas suas diversas formas como espécie, crédito, débito eletrônico etc. Mas, principalmente, a crença na sua intercambialidade, remuneração, valor, lastro, riqueza e assim por diante. 

               As sucessivas crises financeiras desde os anos 1990 (México, mercados asiáticos etc.) até chegar ao crash de 2008 e a subsequente crise do Euro que repercute até hoje, abriram fissuras na credibilidade do sistema financeiro: como conformar-se com bancos, agentes financeiros e especuladores capazes de fabricar, sem limites, o próprio dinheiro? Como entender que a moeda de referência mundial, o dólar, é arbitrariamente impressa pelos EUA e sem lastro desde 1971 quando Nixon rasgou o Acordo de Breton Woods? 

               Diante disso, a Espanha, um dos países europeus mais atingidos pelo crash financeiro com taxas de desemprego que chegaram a 30%, produziu nos últimos anos uma série de filmes que reflete todas essas questões: Hermosa Juventude (2014), 5 Metros Cuadrados (2011), La Chispa de la Vida (2011), El Mundo es Nuestro (2012) e Terrados (2011) são uma pequena amostra de como o cinema espanhol descreve o desemprego, a falta de perspectivas de toda uma geração e a perda dos direitos sociais. 

Quem é bom? Quem é mau?

               A série do canal espanhol Antena 3, La Casa de Papel (2017-) não é apenas mais um produto audiovisual que reflete esses tempos. É a mais contundente narrativa sobre um momento histórico no qual a linha que separa o bom dos maus desapareceu: como pensar a ilegalidade dos pequenos golpistas e falsários quando o próprio sistema global se funda na fabricação arbitrária de papéis, títulos, moeda e crédito? E mais: com as bênçãos de governos e grandes agências classificadores de risco como Moody’s, Standard & Pool e Fitch. 

               Então, de que adianta pensar em um pequeno golpe como no filme argentino Nove Rainhas (2000) se poderíamos dar um grande golpe explorando as fraquezas das três entidades que ajudam a manter a ordem das coisas: governo, polícia e grande mídia. 

               Todas essas questões surgem na mente maquiavélica de um personagem chamado “O Professor” que tem a brilhante ideia de invadir a Casa da Moeda da Espanha com a intenção de fechar-se lá dentro e imprimir mais de dois bilhões de euros – sem matar ninguém ou roubar dinheiro dos contribuintes. Apenas fabricar o próprio dinheiro. Para isso recruta oito ladrões, de acordo com sua especialidade, que aceitam participar do maior roubo da História.

               Junto com o grupo recrutado, durante cinco meses o Professor planejou milimetricamente cada etapa da operação para que nada fosse deixado ao acaso. O único problema é que necessitarão de 11 dias dentro do edifício, junto com os reféns, para imprimir o dinheiro, procurar uma saída e fugir com o produto do roubo impossível de ser rastreado. 

              La Casa de Papel propõe uma curiosa questão: se os ladrões querem apenas roubar papel (sem lastro efetivo, assim como todos os títulos e papéis especulados no sistema financeiro global) o quê na verdade estão roubando? 
Resposta: o Tempo. Roubando o tempo da polícia, do Governo e da grande mídia, para distraí-los, enquanto imprimem bilhões de euros. 

 A questão que a série suscita é essa: seria o Tempo aquilo que o sistema nos rouba para manter toda essa ficção necessária para manter a sociabilidade? 

A Série

               Tudo começa quando um grupo trajando macacões vermelhos e máscaras de Salvador Dalí, fortemente armados com escopetas russas, invadem a Casa da Moeda e toma todos os funcionários de refém. Incluindo um grupo de um colégio de elite que fazia uma visita escolar monitorada. E o detalhe. Entre os alunos, o trunfo mais importante para o assalto: a filha de um diplomata da embaixada da Inglaterra na Espanha. 

               O grupo está determinado e todos os passos parecem que foram detalhadamente planejados: pedem a senha do cofre e começam a encher sacolas com o dinheiro. O desfecho parece previsível – fugirão antes que o alarme dispare. 

               Mas algo estranho ocorre diante dos perplexos funcionários: os próprios assaltantes disparam o alarme e ficam parados, ao lado dos sacos de dinheiro, diante da porta à espera da chegada dos policiais. Que são recebidos à bala, enquanto o grupo sela todas as entradas do edifício. 

               Para a Polícia e a mídia, parece que os assaltantes foram pegos de surpresa e estão desesperados e escudados por reféns. Mas tudo faz parte de um ardiloso plano criado pelo Professor (Álvaro Morte), planejado e treinado intensamente por cinco meses.

              Narrado em of por um dos assaltantes chamado Tóquio (Úrsula Corberó - todos eles têm codinomes de cidades: Helsinque, Nairóbi, Oslo, Berlim etc.), através de vários flash backs o espectador vai montando o quebra-cabeças do plano e as motivações da operação.

Nos 13 episódios dessa primeira temporada acompanhamos um verdadeiro jogo de xadrez entre o Professor e a inspetora responsável pelas operações policiais, Raquel Murillo – Itiziar Ituño. Raquel atravessa naquele momento um inferno pessoal: num mundo policial eminentemente masculino tem que aparentar força. Enquanto passa por uma dolorosa separação litigiosa e luta na justiça pela guarda da sua filha com o ex-marido. E o Professor saberá explorar ao máximo esse ponto fraco da oponente.  

              Enquanto o grupo de assaltantes mantém os reféns na linha, o Professor monitora de fora todas as operações através de câmeras internas do edifício, além de hackear as comunicações policiais.

              Todos os celulares foram desligados e as comunicações são unicamente analógicas por meio de cabos instalados nos meses que antecederam o assalto – tudo para evitar rastreamentos da inteligência policial. 

              Tal como um Big Brother, da sua sala de controle, o Professor cria jogos e iscas para a polícia e a mídia morderem, enquanto ganha tempo – os dias necessários para as máquinas funcionarem a todo vapor para imprimirem os bilhões de euros. 

              Mas os episódios aos poucos revelarão também os pontos fracos do grupo: o líder Berlin (Pedro Alonso) é um narcisista esquizofrênico, Tóquio vive um romance tórrido com o jovem Rio (Miguel Herrán, o especialista em informática do grupo), Moscou (Paco Tous) sente-se culpado por trazer seu filho Denver (Jaime Lorente) para o assalto e assim por diante. 

               E do lado dos reféns a tensão entre o Diretor da Casa da Moeda Arturo (Enrique Arce – o típico burocrata e infiel no casamento das estórias de Nelson Rodrigues) e sua secretaria Mónica (Esther Acebo), grávida depois de um caso com Arturo. Tensão que determinará as reações dos reféns ao assalto. 

Tempo é o bem mais valioso

               Tempo. É apenas isso que o Professor pretende roubar da Polícia. Por isso, La Casa de Papel lembra dois novos clássicos sobre assaltos: Quarto Poder (1997, quando John Travolta invade um Museu e pega reféns na tentativa desesperada de recuperar seu emprego) e Velocidade Máxima (Dennis Hopper monitora toda a operação pela tela da TV, intervindo em tempo real nas operações policiais – “É a TV do futuro!”, dizia cinicamente) de 1994. 

               Mas na série espanhola o produto do roubo não é algo tangível e concreto como o emprego ou o dinheiro que garantiria a aposentadoria do ex-policial vilão. Como indica o próprio título da série, o que está em jogo é apenas papel, cédulas com a marca d’água da Casa da Moeda. Em si, tão sem lastro como todos os dólares, títulos e papéis nas transações especulativas do sistema financeiro global. 

               Mas se o Professor ganhar o tempo necessário, toda aquela papelada se perderá na circulação (e impossível de ser rastreada) e terá tanto valor quanto qualquer papel especulativo. 

               E como ganhar tempo? Jogando migalhas para a grande mídia, assim como no filme Mera Coincidência (1997) no qual um produtor de cinema inventa uma guerra fictícia para o presidente dos EUA ganhar tempo, escapar de um escândalo sexual e ser reeleito. 

               Por exemplo, o Professor vaza o áudio da intenção da Inteligência do Governo libertar unicamente a filha do embaixador, escandalizando a opinião pública: uma inglesa vale mais do que dezenas de espanhóis? 

Criando pequenos escândalos e jogando a opinião pública contra Governo e Polícia, habilmente o Professor ganha a coisa mais valiosa do que o dinheiro: Tempo. 

Crono-economia

               Por tudo isso, La Casa de Papel suscita uma reflexão em torno daquilo que poderíamos chamar de “Crono-economia” – em um sistema financeiro sem qualquer lastro na economia real, o valor da riqueza passa a ser determinado pelo controle do Tempo. 

               O Tempo estruturando a organização do trabalho e a própria riqueza econômica.

               Por exemplo, com a crise das formas estabilizadas das relações de trabalho regidas por direitos trabalhistas passa a tomar o lugar as modalidades flexíveis de trabalho desregulamentadas: atividades comissionadas, remunerações por resultados por projetos de curto prazo, ganhos por produtividade etc. 

               O trabalho não é mais remunerado pela qualidade do produto, mas agora determinado pelo tempo do alcance de resultados por períodos curtos de tempo. Da remuneração do motoqueiro pela maior quantidade de entregas no menor tempo ao corretor de títulos e ações cuja diferença de segundos numa decisão pode ser a diferença entre a lucratividade e o prejuízo, a velocidade é o fator de sobrevivência. 

               Seu salário não é baixo. A questão é de tempo: você leva 30 dias para receber aquele valor. Por isso a sobrevivência depende do domínio da velocidade. Dinheiro não é valor nominal, é um valor probabilístico dado pela circulação veloz. A logística da velocidade é o verdadeiro poder nas sociedades dromológicas (de “dromo”, “corrida”) em que vivemos. Quanto mais lentos, mais abaixo estamos na hierarquia determinada pelo controle do tempo.




Ficha Técnica 

Título: La Casa de Papel
Diretor: Alex Pina, Jesus Colmenar
Roteiro: Alex Pina, Esther Martinez, David Barrocal
Elenco:  Ursula Corberó, Itziar Ituño, Álvaro Morte, Alba Flores, Paco Tous, Enrique Arce,Miguel Hérran, Pedro Alonso
Produção: Vancouver Media,
Distribuição: Antena 3 Televisión, Netflix
Ano: 2017
País: Espanha

Fonte: Cinegnose



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