14 de mai de 2014

"SOBRE A MORTE OU AUSÊNCIA DE VIDA"


Por que nos recusamos a aceitar a morte, relutamos em nos resignar sobre o fim quando entendemos que não há mais?

Se a morte é ausência... é fim... é inexistência, a que nos referimos?

Para entender a morte em sua plenitude é necessário ter plena consciência do que é a vida.

Refletir sobre o que deixa de ser é discernir o que está sendo.

Diante disso, o que, de fato, morre?

Toda construção de personalidade, formação individual e descoletivizada, perece... as identificações pessoais se derretem, esvanecendo-se diante do fim... fim é, portanto, a negação de artificialismos que tanto afirmamos, insistimos em construir e supomos enxergar.

É quando o ego, tentativa de personificar o superficial, é desfeito... os personagens são desmistificados, as vozes se calam e a verdade se faz.

Ainda que seja algo natural e sempre presente, por quê nos surpreendemos ao receber a notícia de alguma morte?

Quando sabemos que determinada pessoa “se foi”, que aquele(a) com quem falamos ainda ontem já não falará mais, por que não aceitar o que é fato, sabido e conhecido desde sempre? Por que tentamos evitar o inevitável?

O fato é que nos limitamos a ter ciência da morte e não sua consciência.

A morte não nos preocupa em nossa essência. O incômodo vem com o fim do personagem criado, com a ausência da realidade que artificialmente tentamos mascarar em toda nossa existência.

Fim é objetivo... término é ciclo completo, morte é chama de vida.

Ao termos consciência de que é realidade, que faz parte da existência e é o objetivo de tudo que nasce, construímos aceitações, entendemos e reagimos pontualmente, ponderadamente, resignadamente, ainda que com desconfortos e tristezas intrinsecamente relacionadas à situação de término, de quebra de expectativas e rompimentos de apegos.

Quanto menos construirmos estruturas fictícias, verdades infundadas e personificações mitificadas, o “inevitável” será mais facilmente vivenciado, experimentado.

Se tivéssemos tal entendimento tudo seria mais fácil, tudo seria mais real.

Se observarmos a natureza, temos inúmeros exemplos... qual a reação de um animal quando outro de sua espécie, morre? Muitos argumentarão que a reação é fria e superficial pois não há consciência... mas eu questiono, onde há? Nós temos?

Não concebemos que é a realidade de todos, sem controle e manipulações. Dos que pensam ser mais aos que se sentem menos, todos se igualam e trilham o mesmo caminho. Ainda assim nunca esperamos que seja em breve ou que venha de repente, muitas vezes “sem aviso” ou esperas.

No entanto, quando o contrário acontece, isto é, quando se mostra aos poucos e percebemos o fluido da existência diminuir, percebemos algumas transformações...

No momento que percebemos a vida, como entendemos, aos poucos deixar de ser, em geral, as buscas por futilidades tornam-se raras, os orgulhos são minimizados, egos enfraquecidos, mágoas esquecidas e reconciliações promovidas. Passamos, neste momento, a supervalorizar o que sempre houve, sem que percebêssemos que já era.

Os valores se alteram, as superficialidades se vão, o estar, o sentir, o entender e o viver são mais fortes... o fluxo de vida e o sentido de existência se fortalecem quando a “vida” se enfraquece.

Quando a mente torna-se menos predominante, a paz se instaura... muitas vezes é apenas no fim que damos o sentido ao início.

Talvez porque, para muitos, apenas aqui a consciência se abre e a existência é sentida como realidade... tudo o que deixará de ser faz tudo se tornar.

Por que não viver consciente de que o hoje é e o amanhã não se sabe? Entender que não se controla o incontrolável, que nossas manipulações em busca de mais saúde, mais energia, mais vida são periféricas e limitadas?

Consciência é viver cada dia em sua mais plena realidade, é experimentar mais sabores, enxergar mais variações de cores, entender que tudo o que pensamos pensar, imaginamos saber e supomos conhecer são fragmentos de algo muito maior e real, embaçado por uma irrealidade temporal, sensorial e espacialmente limitada.

Se amanhã, tudo o que hoje suponho, deixar de ser, foi o fluxo natural cumprido em seu inevitável curso. É o ciclo que se completa, em mim.

Reflita que morte não existe... nem tão pouco a vida que nossos sentimentos experimentam ou nossa mente interpreta.

Se enxerguei, não lamentarei o desfazer do irreal e reviverei, em memória, o quanto aproveitei. Poderei entender, com gratidão, que experimentei o que pude conceber e convivi com o que e quem precisei conviver e que a partir de então, que já não será, algo existirá, além do que posso enxergar e minha então limitada mente conceber.


Leonardo Siqueira

3 comentários:

  1. uma pergunta:se o universo acabara,o que acontecera com vossas alma quando isso ocorrer,ireis para outro universo,reencarna

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    Respostas
    1. "Eu considero o cérebro como um computador que irá parar de trabalhar quando seus componentes falharem. Não há paraíso ou vida após a morte para computadores que quebram; isso é um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro." ~ Stephen Hawking

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    2. Os equívocos da pseuda ciência em relação a alma, personalidade e consciência.
      http://libertesuamente13.blogspot.com.br/2015/10/os-equivocos-da-pseuda-ciencia-em.html

      O QUE É ALMA, E PRA QUE SERVE?
      http://libertesuamente13.blogspot.com.br/2016/09/o-que-e-alma-e-pra-que-serve.html

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