1 de fev de 2017

7 razões porque você odiaria viver no século 19

Talvez você ainda não tenha se tocado disso, mas há centenas de escravos trabalhando para você. Sim, isso mesmo que você leu: centenas de escravos. Todos os dias, de domingo a domingo.
Repare como é o seu dia. Você acorda esticado num lençol de tecido chinês, assiste a seu seriado favorito num televisor com partes eletrônicas de Taiwan e da Coreia do Sul, dirige um carro provavelmente alemão, japonês ou italiano, conversa num celular com plástico tailandês e borracha malaia, troca emails através de um servidor americano e agora provavelmente está lendo esse texto por uma tela de led fabricada em Cingapura. E isso é apenas a ponta do iceberg. Em poucos minutos, você consome produtos dos mais remotos cantos do mundo, que movimentam um batalhão de seres humanos, atravessando oceanos, rompendo barreiras, com um único propósito: servi-lo. Há pessoas extraindo petróleo por você, cultivando alimentos, desenvolvendo medicações, softwares, obras culturais. Talvez você sequer tenha percebido tudo isso, mas consome frações do trabalho de centenas de pessoas, das mais diversas nacionalidades, todos os dias.
Como aponta o biólogo britânico Matt Ridley, em média, um ser humano consome energia à razão de cerca de 2.500 watts, ou, dito de outra forma, usa 600 calorias por segundo – a maior parte disso através de carvão, petróleo e gás. Uma vez que uma pessoa em boa forma, numa bicicleta ergométrica, pode gerar cerca de 50 watts, isso significa dizer que seriam necessários 150 escravos, trabalhando em turnos de oito horas cada, para sustentar o seu estilo de vida. Ou, dito de outra forma: aquecê-lo no frio, refrigerá-lo no calor, torná-lo mais bem alimentado, mais seguro, mais saudável, mais confortável, mais conectado ao mundo. Faça a conta. Para cada família com quatro pessoas, mais de 600 escravos à disposição. Não é pouca coisa. Já imaginou esse tanto de gente dividindo a sala com você?
Mas nem sempre foi assim. A nossa dependência de combustíveis fósseis e de um sistema econômico robusto de mercado é algo relativamente recente na história da humanidade, um sopro nos cinquenta mil anos de comportamento moderno do Homo sapiens. É fruto do tal tempo moderno, tão questionado, atacado e maldito por populistas, críticos da globalização, ludistas de botequim e apologistas do atraso. Há míseros dois séculos, o mundo era radicalmente diferente. E aqui, tenho 7 razões porque você iria odiar viver nele.

1) Sua vida seria mais curta, dolorosa e desconfortável.


Esqueça a imagem pomposa, de aristocratas, príncipes e rainhas dançando em longos trajes de gala. Em 1820, 75% da humanidade vivia com menos de um dólar por dia. O mundo era uma grande África subsaariana. Imagine você inserido nesse universo. Provavelmente viveria no campo (já em 1900, apenas 15% da população mundial vivia em cidades). Sua expectativa de vida diminuiria pela metade automaticamente. Você estaria entregue aos piores pesadelos que atualmente desconhece, convivendo de perto com a chance de morrer de fome, tuberculose, malária, poliomelite, gripe, difteria.
Sua vida seria radicalmente diferente. Nada de celular, televisão, internet, ar condicionado, geladeira. Nada de aspirador de pó, filtro de café, alimentos congelados, fita adesiva, protetor solar, caneta esferográfica, fralda descartável. Você não saberia a cor do seu próprio planeta visto do espaço, que a Via Láctea é apenas uma de muitas galáxias e como é uma música gravada.
Além disso, esqueça sua relação atual com o tempo. A prosperidade não se traduz apenas em grana no bolso. Tempo literalmente é dinheiro. No século dezenove, a simples satisfação das necessidades básicas preencheria a maior parte das horas de seu dia. Atualmente, uma camponesa num país pobre africano gasta 35% de seu tempo cultivando alimentos, 33% cozinhando e limpando, 17% buscando água potável e 5% coletando lenha. Dessa forma, restam apenas 10% de seu dia para outras atividades. No século dezenove, esse era um fenômeno global, generalizado, praticamente inescapável.
Voltar dois séculos, em resumo, significaria ter uma vida curta, sofrendo de todas as dores possíveis sem um tratamento médico adequado, num ambiente absolutamente desconfortável e com pouco tempo disponível para aproveitar a vida.

2) Se somássemos toda fortuna dos homens mais ricos do século 19, não daria a riqueza que você tem à disposição hoje.


Nathan Rothschild era o homem mais rico do mundo em 1836, quando foi acometido por um furúnculo na parte inferior de suas costas. Antes desse pequeno incidente, o banqueiro alemão gozava de boa saúde aos 59 anos de uma vida dedicada exclusivamente à construção da maior riqueza de seu tempo. Nathan teve imediatamente à disposição os melhores médicos do planeta. De nada adiantou. Em pouco tempo, as bactérias do pus do seu furúnculo tomaram conta da sua corrente sanguínea, espalhando-se rapidamente pelo corpo. O herdeiro de uma das dinastias mais icônicas do século 19 morreria vítima de uma septicemia causada por estafilococo. Os Rothschilds poderiam ter todas as coisas de seu tempo à disposição, mas nenhuma fortuna do mundo seria suficiente para dar-lhes um simples antibiótico, encontrado em qualquer farmácia de hoje.
Sim, você provavelmente é muito mais rico que Nathan Rothschild, um dos homens mais ricos de todos os tempos, e não sabe disso. E não apenas ele. Você é mais rico que Andrew Carnegie, John Rockefeller, J.P. Morgan, Jay Gould. Todos esses caras dariam alguns milhões de dólares para terem um televisor, um celular, um notebook, ou ainda, em troca de alguns antibióticos, uns preservativos e ao acesso de informações que você tem diariamente através da internet. Como escrevi recentemente, dos norte americanos oficialmente considerados “pobres”, 99% têm eletricidade, água corrente, descarga e uma geladeira; 95% têm uma televisão; 92% têm forno-microondas, 88% têm um telefone; 71% têm ao menos um carro, 70% têm ar condicionado e mais de 60% têm TV a cabo. Os homens mais ricos do século dezenove não tinham nada disso.

3) Aos homens: sobreviver.


Há uma década, se você fosse um consumidor ocidental médio, teria gasto sua renda, já com impostos deduzidos, mais ou menos do seguinte modo:
• 20% num teto sobre sua cabeça
• 18% em carros, aviões, combustível e outras formas de transporte
• 16% em coisas para casa: cadeiras, refrigeradores, telefones, eletricidade, água
• 14% em alimentos, bebidas, restaurantes, etc.
• 11% em seguro de vida e pensões (poupar para gastos futuros)
• 6% com seguro-saúde
• 5% em cinema, música e todos os entretenimentos
• 4% em roupas de todos os tipos
• 2% em educação
• 1% em sabão, batom, cortes de cabelo e coisas semelhantes
• 0,3% em leitura
Um agricultor inglês, no início do século dezenove, teria gasto seu salário da seguinte forma:
• 75% em alimentos
• 10% em roupas e forragem
• 6% em moradia
• 5% em aquecimento
• 4% em luz e sabão
Sobreviver era a palavra-chave para um cidadão médio nascido no século dezenove. Nada mais fazia sentido. E poucas ações traduziam melhor esse sentimento do que o hábito de comer pão.
Para muita gente, o pão era uma espécie de salvador. Segundo Christian Petersen, historiador do pão, 80% dos gastos com alimentação de uma família típica britânica iam para o pão no início do século dezenove. Esqueça a comida japonesa, a pizza de final de semana, o brigadeiro. Mesmo as pessoas de classe média gastavam algo próximo dos 2/3 de sua renda com alimentação, dos quais uma parcela considerável ia para o pão. Para uma família pobre, a alimentação diária consistia de batatas, um punhado de chá e açúcar, uma ou duas fatias de queijo e, raramente, um pouco de carne. O resto era preenchido pelos pães.

4) Às mulheres: não-ser.


No século dezenove, em boa parte do mundo, a mulher era um não-ser e a única coisa que se esperava de sua existência, quando muito, era casar-se e ter filhos – especialmente no Reino Unido, onde, em 1861, o censo apontava para uma falta de quase meio milhão de homens. Nesse tempo, o divórcio raramente era um artifício permitido a elas. Para obtê-lo na Inglaterra, por exemplo, um homem só precisaria mostrar que a esposa havia lhe traído. Uma mulher, porém, teria que provar que seu companheiro havia agravado a infidelidade mantendo relações com animais, cometendo incesto ou alguma outra transgressão bizarra e imperdoável.
Até 1857, uma mulher divorciada tinha de abrir mão de todos os seus bens, e em geral perdia também a guarda dos filhos. Antes da Married Property Act, de 1882, quando uma mulher se casava, sua riqueza era passada ao companheiro – e se trabalhasse depois de casada, não era incomum que seus ganhos continuassem nas mãos do marido. Perante a lei, uma mulher não tinha direito algum – não poderia usufruir de plena liberdade de expressão, possuir propriedade, assinar documentos legais ou obter uma educação contra a vontade do marido.
O cenário começou a modificar a partir da Revolução Industrial, já na metade final do século, quando as mulheres tomaram conta das fábricas e se tornaram uma força social em franca evidência.

5) Não seria muito agradável viver numa grande cidade.


Na virada do século dezoito para o dezenove, muito por conta das batatas, o mundo viveu uma grande explosão habitacional – entre 1801 e 1901, apenas a população de Londres cresceu de um milhão para mais de seis milhões. Espanha e Itália viram suas populações quase dobrarem durante o século dezoito. Isso tudo causou uma série de problemas. Especialmente nas principais capitais mundiais.
Como escrevi nesse texto, antes dos carros tomarem conta dos grandes centros urbanos, viver numa grande cidade no século dezenove não era uma atividade muito agradável.
Imagine a cena: o ano é 1890 e você mora em Nova York. Convivendo ao seu lado, 200 mil cavalos. É animal que não acaba mais, você pensa. Mas isso é apenas parte do problema. Cada cavalo produz cerca de dez quilos de cocô por dia, e se a sua noção matemática anda apurada, você já deve ter entendido do que estamos falando aqui – duas mil toneladas de fezes de cavalo depositadas todos os dias nas ruas da cidade. Nova York estava completamente afogada em estrume – e junto com ele, seu vasto universo: urina, moscas, carcaças, sujeira, doenças. Não havia táxis, não havia Uber, não havia catraca livre. Em 1894, o Times de Londres estimava que até 1950 todas as ruas da cidade ficariam soterradas em 2,7 metros de profundidade de estrume de cavalo. Em Nova York, a projeção era que até 1930 os excrementos dos cavalos ascendessem às janelas dos terceiros andares. Fomos salvos no soar do gongo pelo veículo automotor.
E os cavalos eram apenas parte do problema. Em 1830, um levantamento dos bairros mais pobres de Leeds, no norte da Inglaterra, descobriu que muitas ruas tinham “esgoto flutuante” – certa rua, onde viviam 176 famílias, não era limpa há quinze longos anos. Em Londres, como aponta Bill Bryson, jogava-se no Tâmisa tudo que fosse malquisto: restos de comida, cadáveres de animais, fezes humanas, e muita, muita, sujeira. Vacas e carneiros eram levados para o Smithfield Market, o mais antigo mercado de carnes do Reino Unido, para serem transformados em bifes e costeletas – deixando pelo caminho, anualmente, mais de 40 mil toneladas de esterco. E isso tudo se somava aos dejetos de cães, patos, galinhas, porcos, seres humanos.
As grandes cidades eram porões de sujeira a céu aberto.

6) Não seria muito agradável morrer numa grande cidade.


Se conviver com a sujeira em vida era absolutamente desagradável num grande centro urbano, em morte era pior ainda. Imagine você que Londres – a capital mais rica do mundo no século dezenove – tinha apenas 90 hectares de cemitérios em 1840. Era um espaço minúsculo. A St Marylebone Parish Church, no centro da cidade, era um cemitério de 2 mil metros quadrados e mais de 100 mil corpos enterrados. E não era uma exceção. O cemitério da igreja de St. Martin-in-the-Fields tomava uma área equivalente a um pequeno parque urbano atual, com mais de 70 mil corpos enterrados. Era corpo que não acabava mais, literalmente brotando do chão. Os corpos eram enterrados de um maneira tão displicente, em covas tão rasas, que muitas vezes ficavam expostos na superfície, ao deleite de corvos e outros animais. Caixões eram empilhados um sobre o outro – e quando esmagados, eram vendidos aos mais pobres como lenha. Corpos eram desmembrados para dar espaço a outros corpos.
Frequentar um sepultamento ou simplesmente passar por um cemitério era uma experiência desoladora. Havia uma série de relatos de pessoas que iam visitar um túmulo e eram derrubadas. Outras tantas desmaiavam com o cheiro durante os serviços religiosos.

Em 1899, o embaixador chinês foi questionado sobre sua opinião a respeito da Londres vitoriana no auge de sua grandeza imperial. Ele respondeu, laconicamente, “muito suja”. Era a atestação do óbvio. Com a imundície em vida e em morte, o resultado evidente era uma coleção de doenças. No século dezenove, as epidemias eram rotina nos grandes centros. Em 1832, a cólera matou mais de 60 mil britânicos – ela voltaria a ter outros surtos em 1848, 1854 e 1867. De 1850 a 1870, só a febre tifoide matava anualmente cerca de 1500 britânicos. De 1840 a 1910, a tosse convulsiva matava cerca de 10 mil crianças todos os anos. E isso para não falar do sarampo, da febre reumática, da varíola e de outras tantas doenças. Todas novas possibilidades para mortes prematuras, instantâneas e banais.

7) Você provavelmente não conseguiria ler esse ou qualquer outro texto.


Sim, a internet é um evidente luxo moderno. Mas não estou falando disso aqui. Em 1870, mais de 3/4 das pessoas em todo mundo não tinham acesso a uma escola (na África e na Ásia esses números eram superiores a 90%). Hoje, a educação escolar alcança 82% da população mundial. Um salto e tanto.
Dois séculos atrás, apenas uma pequena elite tinha acesso à alfabetização – as melhores estimativas apontavam para 12% do mundo alfabetizado. Desde então, chegamos a patamares jamais vistos. Mais do que 4 em cada 5 pessoas ao redor do mundo agora são capazes de ler. Entre 1990 e 2010, a taxa de alfabetização mundial subiu de 76% para cerca de 84%. No Nepal, apenas 17% das mulheres sabiam ler em 1990 – em 2010, esse número havia subido para 48%. Não é nenhum exagero afirmar que a população mundial jamais teve acesso sequer parecido à educação quanto a atual.
Caso você tivesse nascido no século 19, provavelmente pouco saberia a respeito da sua própria existência e do mundo ao redor, a não ser através de dedução e experiência. Mas apesar disso, nem tudo seriam espinhos. Liderado por mentes geniais, uma boa dose de revolução – industrial, científica e institucional – e o nascimento de uma efervescente sociedade de mercado, o planeta estava prestes a decolar e alcançar patamares jamais vistos. Entre a sujeira e a tragédia, num espaço de um século, a relação entre a humanidade e o progresso encontraria rumos nunca antes encontrados.
O mundo moderno era um sopro de vento que dobrava a esquina.

Fonte: spotniks


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