3 de set de 2016

Por não questionar os padrões, não sois livres

Para o confeccionar de teorias não há fim. Quem quer pode inventar teorias. Muitos livros se encontram cheios de teorias acerca da vida espiritual e a respeito da Verdade. Eu não estudei teoria nenhuma, nem vossa nem de outrem; todas as filosofias são teorias que podem ser verdadeiras ou falsas. Jamais me interessei, nem me interesso agora por uma teoria qualquer, seja ela pertencente ao Hinduísmo, ao Budismo, ao Cristianismo ou à Teosofia. Teorias são moldes aos quais a mente humana tem de conformar-se e, onde houver conformidade, não haverá inteligência. As teorias são isentas de valor para um homem que vive, embora sejam excelentes para um homem morto. Para o homem vivaz, que pensa, que palpita, que sofre, vossos livros e teorias quanto ao destino futuro do homem, quanto à sua vida após a morte, são completamente isentas de valor.

Eu tenho estudado gente que vive e não teorias. Tenho contemplado aqueles que pertencem a muitas sociedades e religiões, aos que alimentam muitas crenças e esperanças. Tendo contemplado, observado e sofrido, cheguei a certas conclusões que perante vós especificarei. Não são teorias tiradas de livros, porém coisas que brotam das vulgares experiências humanas na vida diária. Não estou tirando uma teoria contra outra afim de que vossa mente possa deliciar-se pelo contraste e criar divisões e conflitos. Não sou interprete nem mediador: ao contrário, somente pretendo mostrar-vos refletidas em vosso próprio espelho, as causas do conflito, de modo que, pelaverdadeira percepção, pela clareza de pensamento, por vós próprios, possais descobrir este êxtase da Verdade viva e por esse modo vos tornar livres e alegres.

Para compreender o que vou dizer não podeis, portanto, ter vossa mente repleta de teorias. Sei que haveis modelado a vossa vida de acordo com teorias o que vem a ser uma das causas de conflito. Toda a vossa vida se baseia no que outrem disse — no que Buda, Sankaracharya ou Sri Krishna disseram. Como homem que vive, por esse modo haveis destruído vosso próprio entendimento pelo fato de vos conformardes, pelo seguirdes os ditames de outrem. Aquilo que haveis cultivado, vos destruiu.

Há conflito e tristeza na mente e no coração de todos no mundo e, portanto, de pouco serve o vos preocupardes com a ideia de ajudar o mundo, a não ser que vós próprios comeceis a compreender. Enquanto não chegardes a reconhecer a vós mesmos que sois prisioneiro e não começardes a destruir vossas paredes de ilusão, não podeis libertar a outrem; apenas a outros estimulareis para virem participar da vossa própria ilusão, a qual, por contraste, lhes pode parecer liberdade.

Em primeiro lugar, existe, pois, a conformidade.

Se examinardes vossa vida haveis de verificar que todos os vossos pensamentos e sentimentos se baseiam na imitação. Tendes uma imagem previamente formada daquilo que a vida ou a verdade é, imagem essa colhida em livros ou por meio da autoridade e sabedoria de outrem; por esse modo, insidiosamente forçais vossa mente e coração a acomodar-se a essa imagem. Haveis criado uma estrutura social que exige adaptação e conformidade; daí decorre que, como indivíduos, vos haveis tornado completamente incapazes de um pensamento verdadeiro e intenso, incapazes de perceber que, onde houver conformidade para com a ideia de um outro, tem necessariamente que haver falta de sinceridade, hipocrisia. Se cuidadosamente examinardes vossos próprios pensamentos, haveis de verificar que vos estais conformando seja a uma ideia pré-formulada da vida, da verdade, de Deus, seja uma experiência do passado, seja à autoridade de um guia. Dizeis vós: “Ele é sábio, deve saber. Portanto, devo ser instruído por ele: aceitarei suas palavras como sendo a sabedoria, pois que ele diz que sabe”. Eu, no entanto, vos digo: Acautelai-vos de uma tal pessoa, pois que ela cria em vossa mente e em vosso coração o temor que destrói todo o entendimento.

Não vos digo, portanto, que sei e que deveis seguir-me ou obedecer-me; não vos digo que represento a verdade e que vos deveis tornar discípulo dela ou que sou mediador entre vós e a vossa realização espiritual. Tais palavras mais não fazem que criar medo e do temor provém a conformidade, e onde houver conformidade não pode haver inteligência. Só quando a mente está livre de conformidade ou da autoridade, seja a autoridade de outrem, seja a da própria experiência de ontem, é que há a plenitude do viver no presente, na qual está o êxtase da verdade.

Esta imitação, esta conformidade, que resulta de vossa própria exploração e temor, criou autoridades, divisões e distinções de classe, o alto e o baixo, o evoluído e o não evoluído. Desta conformidade nasce a disciplina. Se contemplardes a vossa própria vida, verificareis que esta luta constante que vos é implícita, não é viver, porém, sim, conformar-se. Todo vosso esforço é um mero ajuste de ideias; de vossos sentimentos, de vossas ações, aos ditames de outrem, a uma autoridade, seja a de um Mestre, a de um livro ou a de qualquer pessoa morta. Assim, vossos esforços e lutas, baseadas na conformidade e na imitação, não vos levam ao entendimento, mas, antes, vos tornam hipócritas e faltos de sinceridade para convosco próprios. Não sabeis o que realmente pensais, o que na verdade sentis, pois que jamais duvidais do padrão, jamais colocais em dúvida a autoridade. Semelhantes a ovelhas, seguis o pastor e o pastor que vos guia é, ele próprio, cego. E assim, aquele que vos dirige é o vosso destruidor.

Tornou-se o homem nada mais que um dente de engrenagem. Vive sem completude, sem o êxtase de viver; está sempre disciplinando, controlando, suprimindo e destruindo seu próprio entendimento criativo. Daí a completa desgraça e caos do mundo.

Da conformidade provém, naturalmente, o desejo de aquisição. Todos buscais segurança, tanto neste mundo como no espiritual. Neste mundo, a segurança significa o amontoar de riquezas, de bens. Eu não advogo a pobreza. Quero que compreendais, não que puleis para o oposto. Todos os opostos nascem da ilusão e vós sois facilmente colhidos pela ilusão dos opostos. Inclinais vossas cabeças em prazerosa concordância, porém, se realmente pensásseis, começaríeis a chorar. Onde houver conformidade tem que haver aquisição e daí o sistema competitivo desta civilização, na qual cada indivíduo anda rudemente em busca de segurança para si e para os seus, à custa dos outros.

A seguir vem a busca de segurança espiritual, que denominais evolução ou progresso. O progresso nada mais é do que aquisição de virtudes. A virtude torna-se, assim, um vício. Na conformidade há medo e, portanto, adquiris qualidades, virtudes, e lutais pela consecução a fim de a vós próprios poderdes proteger e vos sentir ao abrigo da aflição, em segurança. Daí, por meio desta ideia de progresso, surge a divisão, o alto e o baixo, o homem que sabe e o que não sabe, todos os quais criam resistência, disputas, conflitos. Da aquisição brota a ideia de força. Todo o progresso de pensar, no presente se acha preso no esforço para subir cada vez mais alto, para adquirir mais e mais e, por esse modo, não estais vivendo, um dia que seja, completa e ricamente.

Portanto, a base de vosso pensar é imitação, segurança e força. Para isto é que tendes guias, diretores, gurus.

Vossa concepção do progresso é um contínuo movimento de um objeto de desejo para outro. Quando tendes ânsia de posse por um objeto material, lutais pela sua aquisição até possuí-lo; porém, a partir do momento em que o houverdes obtido, ele perde sua atração, seu significado. Portanto, vosso anseio vos compele a buscar afeto, popularidade, fama, poder, e ides em busca dessas coisas e as possuis. Uma vez mais, porém, ficais desiludidos; e então buscais a Deus, a verdade ou a vida, porém sempre impulsionados pelo desejo. Apenas tereis mudado o objeto de vosso desejo, e chamais a isto progresso. Nisto não pode haver entendimento. O entendimento vem quando há cessação de todo o desejo que cria o conflito.

Desejais o poder neste mundo material de aquisições. Por isso ides à busca de títulos, de reconhecimento e de riqueza, que vos dá o sentimento de poder, criando por essa maneira distinções nas quais não há ternura, nem gentileza, nem afeto. Um sentimento de superioridade domina o homem que há adquirido poder espiritual e em sua mente existe a distinção entre si próprio e o homem que não possui esse poder. Para mim é isto a verdadeira antítese da compreensão. Onde houver consciência de distinção não pode haver a realização desta viva realidade.

Portanto, conformidade, segurança e força são os três embaraços que impedem o homem de realizar a verdade pois que ela é inimaginável, inexpressável. Aquilo que é vivo, sempre mutante, não pode ser descrito. Aquilo que é descritível, não é a verdade. Eu, porém, posso dizer-vos quais os embaraços para a compreensão. Tornando-vos apercebidos desses embaraços, confrontando-os, reconhecendo-os pela vossa mente e coração, a vós próprios libertais deles e por esse modo realizais a harmonia, o equilíbrio da compreensão.

Tais são, pois, as barreiras, com todas as suas sutis variantes, que impedem o homem de viver no presente, o qual, unicamente, é imortalidade. Ora, eu digo-vos, não luteis contra eles nem pacificamente lhes resistais, porém tornai-vos conscientes de serem eles falsos, de serem eles um embaraço para a clareza do discernimento. E somente vos podeis tornar conscientes examinando-os com vossa mente, liberta por completo de todos os apegos. Presentemente, pertenceis a qualquer religião ou sociedade. Vossa lealdade exige de vós certos atos, vossa religião exige o preenchimento de certos deveres. Com todas essas coisas vossa mente fica sufocada e, portanto, incapaz de verdadeiro discernimento. Vossa mente acha-se apegada a crenças e preconceitos particularizados que vos dão satisfação e a sensação de grandeza, força. Enquanto existir apego, não pode haver discernimento do que é verdadeiro; e é somente quando estais plenamente apercebidos, quando a vossa mente e coração se acham livres, desapegados, que advém o entendimento no qual não existe esforço nem disciplina.           

Krishnamurti, palestra em Adyar, Índia, 28 de dezembro de 1932


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