7 de abr de 2016

O TDAH e as relações conjugais

Seu marido não percebe quando você corta o cabelo?
É indiferente e nunca se lembra do aniversário de casamento?
Vive enrolado e cheio de problemas? 
 Talvez ele sofra de TDAH!
O TDAH ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade tem início na infância e evolui com sintomas ao longo da vida em mais de 70% dos casos¹. Acomete 4% dos adultos e cursa com prejuízos em vários setores, inclusive na esfera conjugal. Pessoas com TDAH quando comparadas a quem não tem o transtorno têm mais dificuldade no controle da atenção, hiperatividade e impulsividade. Nelas, as atividades cerebrais responsáveis pelo comportamento, organização e autocontrole estão comprometidas interferindo nas ações do cotidiano. Entre os problemas de origem neurobiológica provavelmente o TDAH é o que mais contribui para as dificuldades entre marido e mulher.
A incapacidade básica de prestar atenção, típica do TDAH, costuma gerar uma gama de comportamentos “mal vistos” dentro de um relacionamento como parecer não ouvir o outro, não perceber os sentimentos do outro, não lembrar datas ou acontecimentos importantes do casal, não dividir as tarefas da casa e não se lembrar de encontros previamente agendados com o parceiro. Sujeitos com TDAH são 30% mais imaturos e sensíveis e na maioria das vezes agem de modo infantil e pirracento dando ao parceiro a sensação de estar lidando com um filho e não com um marido, de quem se espera um compartilhamento dos ônus e bônus da relação².
Alguns têm o pavio curto e são explosivos, impacientes, irritadiços e inconstantes. Quando estão de mau humor podem não controlar a raiva e agir desproporcionalmente à situação. A presença de tais características na mesma pessoa costuma dar a impressão de falta de amor e consideração pelo parceiro com TDAH. A cabeça sempre cheia de pensamentos desorganizados dificulta o engajamento e o estabelecimento de intimidade, ao dificultar que eles destinem tempo suficiente à relação, mantendo-a no foco principal pelo tempo necessário. Em consequência, é comum serem percebidos como pessoas frias, insensíveis, egoístas e hedonistas, características nada desejáveis em um relacionamento saudável.
A impulsividade piora ainda mais a relação, as decisões tomadas sem consultar o/a parceiro/a, de "cabeça quente" e sem pensar. Muitas vezes se esquecem de comunicar algo importante, por achar que já o fizeram. Pelo jeito “avoado” de ser, esgotam seus parceiros. Por se tratar de uma disfunção executiva, o TDAH promove um estado deficitário nas ações voluntárias de modo geral, especialmente na memória, planejamento, organização, gerenciamento do tempo e emoções.
Seus atos estão na dependência da motivação e sensação de prazer e recompensa imediata, por isso costumam ser passionais e inconstantes. No início do relacionamento ou de uma atividade tudo é regado a mimo, atenção e paixão sem fim. Em pouco tempo vem uma sensação de fastio, tédio e intransigência, associados a uma sensação de entorpecimento e indiferença, até que uma nova atração surja, com mais novidade e adrenalina, que o obrigará a por em teste a sua capacidade de sedução e prazer. Daí se origina a compulsão por atividades de risco e a sensação de tédio por atividades difíceis, monótonas, burocráticas, repetitivas e as que demandam mais responsabilidade e resiliência, como casamento e emprego.
Quanto à atividade sexual, as queixas também são frequentes. Talvez a mais comum seja a de falta de intimidade sexual genuína. Para isso é preciso que o parceiro se desligue de tudo e foque no momento, tarefa complexa para quem tem TDAH. Pode surgir a sensação de tédio sexual, pois indivíduos com TDAH têm a sensação de perderem o interesse pela rotina, querendo sempre mudar para atividades ou pessoas mais estimulantes. Esse sentimento de enfado sexual é uma das razões para as altas taxas de divórcio observadas entre os casais onde um deles tem o TDAH.
O trabalho também se mostra um grande inimigo. As situações podem ser extremas, desde aquelas que não conseguem se firmar no emprego e que estão sempre trocando de serviço (alta rotatividade profissional) às que permanecem no emprego, mas de modo deficitário, sempre chegando atrasado, levando advertência do chefe e com os compromissos sempre fora do prazo. Em geral, pessoas com TDAH têm menos anos de escolaridade, trabalham menos horas e têm um salário menor, não persistem em cargos de dia todo e nem suportam serviços burocráticos. Ao contrário, outros são “workaholic”, hiperfocados no trabalho, ficando horas e dias debruçados em relatórios que têm a fazer, ficando geralmente acordados até a madrugada, relegando o relacionamento à segundo plano.
O cônjuge sem TDAH com frequência relata solidão e não desfruta a vivência de compromisso e cumplicidade, essenciais para um relacionamento saudável. Com os anos, a relação costuma ficar fria e desgastada. Ressentimento, mágoa e maus tratos são constantes³. Vários rótulos permeiam a relação, como os de preguiçosos, burros, volúveis, egoístas, relaxados, irresponsáveis, entre outros. Os maridos se queixam que as esposas vivem “sonhando”, sempre “no mundo da lua", sem trabalhar e sem desenvolver o seu potencial. Elas, com frequência, se sentem depressivas e frustradas com o casamento, e com a sensação permanente de estarem presas a uma armadilha (Hallowell e Ratey, 1994).
Lamentavelmente, problemas de saúde mental são pouco divulgados em nossa sociedade, e portadores e familiares pagam um alto preço devido a este desconhecimento. É o caso do TDAH, onde pessoas acometidas agem assim por conta de um comprometimento neurobiológico. O fator que mais contribui para desentendimentos entre o casal é, sem dúvida, a falta de informação. Sem ela, o TDAH jamais será incluído entre as hipóteses diagnósticas em casos de sofrimento conjugal. Ao ignorar que o modo de agir do parceiro/a está ligado ao fato de ele ter um problema neurobiológico, faz toda a diferença. O processo de conhecimento do TDAH satisfaz a ambos os cônjuges acarretando um fortalecimento dos vínculos afetivos da relação.

Escrito por ABDA

Referências:
¹ CHADD, 2000
² Guilherme PR et al., 2007; Johnston e Mash, 2001
³ Erel e Burman 1995
Escrito por Dra. Eveyn Vinocur
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