1 de fev de 2015

A ILUSÃO DA PROPRIEDADE

A ILUSÃO DA PROPRIEDADE
"Possuir" alguma coisa - o que isso quer dizer realmente? O que significa tornar alguma coisa "minha"? Se alguém parar no centro de uma grande cidade, apontar para um arranha-céu e disser: "Aquele prédio é meu. Sou o dono dele", ou essa pessoa é muito rica, ou está se iludindo, ou é uma mentirosa. Em qualquer um desses casos, ela está contando uma história em que a forma de pensamento "eu" e a forma de pensamento "prédio" se fundem numa coisa só. É assim que o conceito mental de propriedade funciona. Se todo mundo confirmar sua história, é porque deve existir uma papelada assinada que ateste o motivo pelo qual todos concordam com isso. A pessoa é rica. Caso ninguém aceite sua afirmação, ela será mandada para um psiquiatra, pois ou está tendo alucinações ou é uma mentirosa compulsiva.

É importante reconhecer que a história e as formas de pensamento que a constituem, independentemente de todos concordarem com elas ou não, não têm nada a ver com quem a pessoa é. Ainda que a afirmação seja aceita, trata-se, no fim das contas, de uma ficção. Muitos indivíduos não compreendem isso até estarem no leito de morte e constatarem que nada que é exterior, nenhuma coisa, jamais correspondeu a quem eles são. Com a proximidade da morte, todo o conceito de propriedade acaba se revelando sem o menor sentido. Nos seus últimos momentos de vida, as pessoas também entendem que, embora tenham estado em busca de uma percepção mais completa do eu ao longo de toda a sua existência, o que elas estavam de fato procurando, seu Ser, na verdade sempre havia estado ali, mas fora obscurecido de modo significativo por sua identificação com as coisas, o que, em última análise, significa identificação com a mente.
"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus",2 disse Jesus. O que significa "humildes de espírito"? Nenhuma bagagem interior, nenhuma identificação. Nenhuma relação com coisas e com conceitos mentais que possuam uma percepção do eu. E o que é o "Reino dos Céus"? A simples, porém profunda, alegria do Ser que está presente quando abandonamos as identificações e nos tomamos "humildes de espírito".
É por isso que renunciar a todos os bens é uma prática espiritual antiga tanto no Oriente quanto no Ocidente. Desistir dos bens, porém, não nos libera automaticamente do ego. Ele tentará assegurar a própria sobrevivência encontrando alguma coisa com a qual se identificar - por exemplo, uma imagem mental da própria pessoa como alguém que superou todos os interesses pelos bens materiais e é, portanto, superior ou mais espiritualizada do que as outras. Há indivíduos que abrem mão de todas as posses, no entanto têm um ego maior do que alguns milionários. Se deixarmos de lado um tipo de identificação, o ego logo encontrará outra. No fim das contas, não importa ao que ele se apega desde que isso tenha uma identidade. Ser contra o consumismo ou não concordar com a propriedade privada seriam outras formas de pensamento, outras mentalidades, capazes de substituir a identificação com os bens. Por meio delas podemos nos considerar certos e classificar os outros como errados. Como veremos adiante, estabelecer uma divisão desse tipo é um dos principais padrões mentais egóicos, uma das
maiores demonstrações de inconsciência. Em outras palavras, o conteúdo do
ego pode mudar, todavia a estrutura mental que o mantém vivo não se altera.
Um dos pressupostos inconscientes é de que, ao nos identificarmos com algo por meio da ficção da propriedade, a aparente solidez e permanência desse objeto material endossará nossa percepção do eu com mais firmeza e constância. Isso se aplica sobretudo aos imóveis e ainda mais às terras, pois acreditamos que esses são os únicos bens que temos condições de possuir que não podem ser destruídos. O absurdo de termos alguma coisa torna-se ainda mais evidente no caso da terra. Na época da colonização da América do Norte, por exemplo, os nativos consideravam a propriedade da terra um conceito incompreensível. E, assim, eles a perderam quando os europeus os fizeram assinar folhas de papel, que eram igualmente incompreensíveis para sua cultura. Os indígenas sentiam que pertenciam a terra, mas ela não lhes pertencia.
O ego tende a equiparar ter com ser: eu tenho, portanto eu sou. E, quanto mais eu tenho, mais eu sou. Ele vive por meio da comparação. A maneira como os outros nos vêem nos transforma em como nos vemos. Se todas as pessoas vivessem em mansões ou fossem ricas, suas casas luxuosas e sua riqueza não serviriam mais para destacar sua percepção do eu. Alguém poderia então se mudar para uma cabana simples, renunciar à fortuna e recuperar uma identidade sendo ele mesmo e sendo considerado mais espiritualizado do que os outros. O modo como um indivíduo é visto pelos demais torna-se o espelho que lhe diz como e quem ele é. Na maioria das vezes, a percepção do ego sobre o valor pessoal está ligada ao valor que a pessoa tem aos olhos dos outros. Ela precisa que eles lhe dêem uma
percepção do eu. Caso viva numa cultura que, em grande medida, equipara seu valor a quanto e ao que ela possui, é bom que seja capaz de detectar essa ilusão coletiva para não ser condenada a correr atrás de coisas pelo resto da vida na vã esperança de encontrar seu valor e satisfazer sua percepção do eu.
Você quer saber como se livrar do apego às coisas? Nem tente fazer isso. É impossível. Esse vínculo desaparece por si mesmo quando paramos de tentar nos encontrar nas coisas. Nesse meio-tempo, simplesmente tenha consciência de que está ligado a elas. Às vezes, você pode não saber que está vinculado a alguma coisa, quer dizer, identificado com ela, até perdê-la ou sentir a ameaça da perda. Depois disso, se você ficar aborrecido ou ansioso, é porque o apego existe. Caso esteja consciente de que está identificado com algo, a identificação não é mais total. "Eu sou a consciência que está consciente de que existe vínculo." Esse é o começo da transformação da consciência.
Eckhart Tolle, O Despertar De Uma Nova Consciência.


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