14 de jan de 2015

“O Direito de pensar”

A ninguém, nem aos deuses nem aos demônios, nem às tiranias da terra nem às tiranias do céu, foi dado o poder de impedir aos homens o exercício daquele que é o primeiro e o maior de seus atributos:  o exercício do pensamento. Podem amarrar as mãos de um homem, impedindo-lhe o gesto. Podem atar-lhe os pés, impedindo-lhe o andar. Podem vazar-lhe os olhos, impedindo a vista. Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala.
O direito de pensar, o poder de pensar, porém, estão acima de todas as violências e de todas as repressões, que nada podem contra seu exercício. Se assim o quiserem os deuses, se assim o quer a própria natureza humana, parece claro que não há abuso  mais abominável que o de tentar impor limitações ao pensamento de qualquer pessoa.
Pretender suprimir o pensamento de quem quer que seja é o maior dos crimes. Pois não é apenas um crime contra uma pessoa, mas contra a própria espécie humana, uma vez que é o pensamento o atributo que distingue o ser humano dos demais seres criados sobre a face da terra. É certo que é um crime que não se consuma, pois fica sempre no terreno da tentativa, como se alguém quisesse violar o inviolável.
O fato, porém, de não se consumar um crime, não quer dizer que não se caracterize o criminoso. Pois, na verdade, só ao se supor capaz de sufocar o pensamento de seu semelhante, o autor dessa suposição cometeu um crime estupendo, contra todos e contra si mesmo, porque se depravou na intenção de roubar o que não pode ser roubado, de matar o que não pode morrer.
Os pérfidos juízes de Atenas tiraram a Sócrates o direito de educar os jovens e o direito de viver. Mas foram impotentes para tirar-lhe o direito de pensar, exercido por ele até o último hálito da existência.
O ser humano existe enquanto pensa. Quando deixa de pensar, deixa de existir. Alguns sofistas andaram ensinando que o homem deixa de pensar quando deixa de existir. Mas o homem não pensa porque existe, mas existe porque pode pensar. No dia em que deixar de pensar, foge-lhe a existência. Pelo menos a existência como ser humano, pois não se pode dizer que um demente tenha uma existência de ser humano.
O homem pode pensar bem ou pensar mal, pensar pouco ou pensar muito. Não há, porém, uma diferença qualitativa, mas apenas uma diferença quantitativa no exercício do pensamento de cada pessoa. Pois, sendo um atributo essencial do homem, todos exercem com esse atributo uma função qualitativa igual. Assim como o olho do homem é feito para ver todas as coisas, também a mente é feita para pensar todas as coisas. Uns vêem mais coisas do que os outros. Assim também uns pensam menos coisas do que os outros. Mas a qualidade do ver é a mesma em todas as pessoas, embora varie de uma para outra a quantidade da coisa vista.
Ai dos homens que não usam, em toda a sua plenitude, o direito e o atributo de pensar!. Se um pássaro em pleno vôo parasse subitamente de usar suas asas, o poder de voar que lhe foi dado, o atributo do equilibrar-se no ar e viajar as distâncias etéreas, cairia miseravelmente no chão.
Se um homem pára de pensar, por preguiça ou por estultícia, todos os desastres lhe podem acontecer. Se seu pensamento não responde ao que vêem seus olhos, pode jogar-se no fogo e na água, e perecer queimado ou afogado.
Na vida da cidade, se um homem neutraliza dentro de si o direito de pensar, a cidade pode ser tomada e dominada pela ferocidade de um tirano, cujo despotismo levará o povo à morte pela fome, pela crueldade ou por outras formas de injustiça e prepotência. E se não o povo todo, pelo menos uma parte do povo, certamente, será arrastada à opressão, à tortura, ao cárcere ou a qualquer outra forma de perdição.
Os tiranos não gostam que as pessoas pensem. Fazem um grande esforço para que o pensamento seja deformado, isto é, perca a sua forma original, isto é, a forma que lhe dá cada um, tentando estabelecer uma espécie de fábrica de pensamento, de modo a que todos, não pensando pela própria mente, passem a pensar pela mente do despotismo dominador. Isto aconteceu algumas vezes na Grécia. Mas sempre que o povo se dispôs a exercer com todo o vigor o seu direito e o seu atributo de pensar, os tiranos foram destronados, levados ao ostracismo e os despotismos derrubados.
Teócrito de Corinto tem seu nome inscrito entre os neoplatônicos do século 2 de nossa era, presumivelmente. Faz parte do grupo de 32 seguidores do pensamento socrático, cuja existência nunca foi plenamente confirmada e cuja obra foi recolhida em fragmentos por Gerhard Wolfius, na famosa seleção de “apócrifos” da filosofia grega, semelhante à coleção de Evangelhos apócrifos guardados sobretudo pela Igreja Ortodoxa. O termo apócrifo é empregado, no caso, em seu verdadeiro sentido, isto é, de autoria desconhecida. O texto que hoje publicamos é da rara coletânea de Wolfius. “O Pensamento Apócrifo da Grécia”.

(Extraído de http://almanaque.folha.uol.com.br/filosofiateocrito.htm. Texto publicado na Folha de São Paulo  em 17/03/1978. Acesso em 18/11/2011)
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