12 de jan de 2015

Fome de viver (ou pressa de comer…)

E essa fome que corrói o estômago? Não, não é fome de comida, mas corrói o estômago e todo o resto, mesmo assim.

Fome de riqueza de gestos, nobreza de palavras, experiências enriquecedoras, fome de viver… será que isso causa gastrite?!? Ou será que é culpa da minha alimentação desregrada? Talvez o estômago não seja a única coisa inflamada aqui dentro…

Essa minha mania de sempre querer mais me aborrece. Seria tudo tão mais simples se viver uma vida só de cada vez me bastasse. E quisera eu que os meus incontáveis desejos fossem todos compráveis. Eu daria um jeito, trabalharia dobrado, tentaria um empréstimo, venderia até a alma!

Eu ando tentando fazer as pazes comigo, tentando ser uma boa menina, simpática e agradável. Faço todo o possível para me mimar. Logo mais me prometi levar ao cinema, eu e as minhas vontades, nós duas, sozinhas. Também decidi me presentear com dois livros da minha “singela” lista de “próximos livros a serem lidos“. Ok, ok… também vou comprar mais um filminho…

Para o desgosto da minha conta bancária eu criei mais esse hábito: ter minha própria locadora em casa, repleta dos meus filmes favoritos. Porque, assim como tudo nessa minha vidinha metida à besta, assistir os melhores filmes uma única vez também não me sacia…

Mas, afinal, quando foi que eu já me senti saciada? Antes de continuar escrevendo eu parei por alguns minutos e tentei encontrar lá no fundo da memória um momento de satisfação plena… não achei nada. Talvez essas lembranças tenham se perdido quando eu nasci, porque eu aposto que enquanto feto, eu estava plenamente satisfeita, sem grandes planos para o futuro, sem desejos veementes. Ou não.

É mais provável que eu tenha sido um feto ansioso para nascer, louco para desbravar o mundo, para conhecer minha mãe, meu pai, minha irmã que sempre conversava comigo quando eu estava lá dentro daquela barriga apertada. Pode ser que eu mal tenha suportado todos aqueles meses de curiosidade, e o fato de eu ter nascido depressa, na presença de um único médico, sem a ajuda de enfermeiros, já é um forte indício da minha “pressa precoce”.

Sim, eu tenho pressa desde que me entendo por feto. Talvez desde que eu me entendo por sêmen…

E é exatamente do tamanho de um espermatozóide que eu me sinto perto dos meus desejos e comparada ao mundo que existe lá fora, pedindo para que eu o explore…

E hoje… hoje eu acordei mais faminta do que acordo de costume, com uma pressa maior do que os passos que as minhas pernas curtas e velozes são capazes de dar. E elas até tentaram me dizer que a vida pode esperar, mas eu sei que pernas não falam, e se falam, mentem, porque tudo que a vida não pode é esperar.

É tudo culpa desse meu velho vício de sonhar, que me faz contar as horas para chegar logo o dia em que eu estarei realizando tudo o que sonho agora, e quando esse dia chegar eu, muito provavelmente, estarei esperando ansiosa para degustar novos momentos que eu desejarei viver até lá.

Por isso, o quanto antes eu me acostumar com a minha alma roncando de fome, melhor. Porque o dia em que essa vontade toda passar, eu nem estarei mais aqui pra contar…

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni
https://janeladecima.wordpress.com/tag/liberdade/

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